TEXTOS DO MÊS
HEPATITE C: UM MAL SILENCIOSO
Transmitida pelo contato com sangue contaminado, a doença pode levar 20 anos para manifestar sua forma mais grave
Um em cada 40 brasileiros tem hepatite C, doença que em sua forma crônica pode evoluir para a cirrose hepática e, até mesmo, o câncer no fígado. Estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que o Brasil tem cerca de quatro milhões de portadores do HCV, vírus causador da moléstia. São pessoas como a psicóloga Lúcia Mastrangelo, que se descobriu infectada pelo vírus em 1997, 22 anos após sua provável contaminação. "Tive uma hepatite em 1975, diagnosticada como tipo B. Mais de 20 anos depois, fiz uma bateria de exames para iniciar uma dieta. O médico estranhou os resultados obtidos e pediu novos testes. Só então fiquei sabendo que era portadora do HCV", conta Lúcia.
Imagem de um HCV, agente causador da hepatite C |
A demora no diagnóstico é comum na hepatite C, pois a infecção inicial pode passar como uma virose comum, com sintomas como febre e mal estar. Apenas quando o paciente apresenta icterícia (pele e olhos amarelados) e colúria (urina escura), sinais clássicos de hepatite, é que se dá conta da gravidade da doença.
Na infecção por HCV, o perigo é maior. Enquanto a hepatite B desenvolve sua forma crônica e mais grave em cerca de 10% dos pacientes, a C cronifica em até 85% dos casos. Segundo o médico da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) da Fiocruz Antônio Sérgio da Fonseca, um terço dos doentes crônicos desenvolvem formas mais graves, que podem levar à morte. De acordo com ele, a cura é obtida em apenas 30% dos casos e ainda não existe vacina contra a doença. "Entretanto, é uma moléstia de evolução lenta. Você pode levar 20 anos até desenvolver as formas mais graves, por isso muitos casos estão aparecendo agora. Muitas pessoas morrem de velhice antes de sentirem os primeiros sinais de cirrose hepática", afirma o médico.
Fonseca explica que a transmissão do HCV ainda não está muito clara para a ciência, mas sabe-se que se dá principalmente pelo contato direto com sangue, por meio de transfusão, compartilhamento de agulhas e uso de objetos cirúrgicos não esterilizados, por exemplo. As principais vítimas inicialmente foram hemofílicos, pacientes renais crônicos que faziam hemodiálise e pessoas que receberam transfusões de sangue. A partir de 1993, com a introdução obrigatória dos primeiros testes de detecção nos hemocentros, os usuários de drogas injetáveis passaram a ser os mais afetados pela doença. "Todos aqueles que receberam transfusões de sangue antes desse período podem ser portadores do vírus", alerta Fonseca.
De acordo com ele, a transmissão vertical, de mãe para o feto, é rara, assim como o contágio por via sexual, mais freqüente nos casos de co-infecção com o HIV, vírus causador da Aids. A infecção por HCV pode ser evitada com a esterilização adequada de material cirúrgico, o uso de seringas descartáveis e preservativos e a realização de testes anti-HCV para triagem de doadores em bancos de sangue. É recomendado ainda não compartilhar escova de dente, aparelhos de barbear e outros objetos que possam conter sangue. Os equipamentos usados para fazer tatuagem e piercing também podem transmitir a doença.
Tratamento árduo e caro
Além de apresentar, em média, apenas 30% de chances de sucesso, o tratamento da hepatite C é caro, complicado e incômodo. Feito à base de Interferon e Ribavirina, pode durar cerca de um ano. Nesse período, são comuns efeitos colaterais como enjôo, vômito, perda de peso, dores nas articulações, irritabilidade e depressão. Segundo o presidente do Grupo Otimismo, entidade de apoio aos portadores da doença, Carlos Varaldo, esses sintomas obrigam muitos pacientes a parar o tratamento. "A reação pode ser muito ruim. Dependendo do impacto dos efeitos colaterais, o estado de saúde e a idade do paciente, é melhor suspender a medicação", confirma o médico Antônio Sérgio da Fonseca.
O alto custo é outro fator que dificulta o tratamento. Embora a Ribavirina seja produzida no Brasil, o Interferon não é - seu preço pode chegar a R$ 1.033,92 por dose. O tratamento completo custa R$ 5 mil por mês é oferecido gratuitamente. Apesar disso, Varaldo confia na melhora da situação dos portadores do HCV a partir do próximo ano. "O Ministério da Saúde já se comprometeu a usar os Centros de Testagem Anônima de Aids (CTAs) para oferecer exames de hepatite B e C. Ao lado disso, há a possibilidade de laboratórios brasileiros produzirem Interferon a partir de um acordo de transferência de tecnologia firmado recentemente com o governo cubano. Acho que 2004 será um ano de conquistas para quem tem hepatite C", comemora Varaldo, que se curou em 1997.
por Pedro Sloboda da equipe da FIOCRUZ
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(Fonte: FIOCRUZ)