GUIA
DE DOENÇAS
TUBERCULOSE
Aspectos
Epidemiológicos:
A
tuberculose continua sendo um importante problema de saúde
pública, especialmente em países em desenvolvimento. Estima-se
que cerca de 1,7 bilhões de indivíduos em todo o mundo estejam
infectados pelo M. tuberculosis, correspondendo a 30% da
população mundial. Nos países desenvolvidos, cerca de 40.000
mortes são devidas à tuberculose e mais de 400.000 casos novos
são descobertos a cada ano. Nesses países, a tuberculose é
mais freqüente entre as pessoas idosas, nas minorias étnicas e
imigrantes estrangeiros. Nos países em desenvolvimento,
estima-se que ocorreram cerca de 2,8 milhões de mortes por
tuberculose e 7,5 milhões de casos novos, atingindo a todos os
grupos etários, com maior predomínio nos indivíduos
economicamente ativos. No Brasil, estima-se que, do total da
população, 35 a 45 milhões de pessoas estão infectadas pelo
M. tuberculosis, com aproximadamente 100 mil casos novos por ano.
O número de mortes pela doença em nosso meio é de 4 a 5 mil,
anualmente. Com o surgimento, em 1981, da Síndrome de
Imunodeficiência Adquirida (SIDA/AIDS), vem-se observando, tanto
em países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, um
crescente número de casos notificados de tuberculose em pessoas
infectadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). A
associação (HIV/TB) constitui, nos dias atuais, um sério
problema de saúde pública, podendo levar ao aumento da
morbidade e mortalidade pela tuberculose, em muitos países.
- Agente
Etiológico: Mycobacterium tuberculosis.
O complexo Mycobacterium tuberculosis é
constituído de várias espécies: M. tuberculosis, M.
bovis, M. africanum e M. microti. Outras espécies de
micobactérias podem produzir quadro clínico semelhante
à tuberculose, sendo necessário para diagnóstico
diferencial a cultura e a identificação das mesmas,
pelos laboratórios de referência.
- Reservatório
e Fonte de Infecção: o reservatório principal é o
homem. Em algumas regiões, o gado bovino doente. Em
raras ocasiões, os primatas e outros mamíferos.
Por fonte de infecção entende-se
qualquer indivíduo capaz de transmitir o bacilo da
tuberculose. Em geral, a fonte de infecção é o
indivíduo com a forma pulmonar da doença, eliminando
bacilos para o exterior. Calcula-se que durante um ano,
numa comunidade, uma fonte de infecção poderá
infectar, em média, de 10 a 15 pessoas que com ela
tenham tido contato.
- Modo de
Transmissão: a fala, o espirro e, principalmente a tosse
de um doente de tuberculose pulmonar bacilífera lançam
no ar gotículas contaminadas de tamanhos variados.
As gotículas mais pesadas se depositam rapidamente e as
mais leves permanecem em suspensão no ar. Somente os
núcleos secos das gotículas (Núcleo de Wells), com
diâmetro de até 5m e com 1 a 2 bacilos em suspensão,
podem atingir os bronquíolos e alvéolos e aí iniciar a
multiplicação. As gotículas médias são, na sua
maioria, retidas pela mucosa do trato respiratório
superior e removidas dos brônquios através do mecanismo
muco-ciliar. Os bacilos assim removidos são deglutidos,
inativados pelo suco gástrico e eliminados nas fezes. Os
bacilos que se depositam nas roupas, lençóis, copos e
outros objetos dificilmente se dispersarão em aerosóis
e, por isso, não desempenham papel importante na
transmissão.
- Período
de Incubação: após a infecção pelo M.
tuberculosis, transcorrem, em média, 4 a 12 semanas para
detecção das lesões primárias. A maioria dos novos
casos de doença pulmonar ocorrem em torno de 12 meses
após a infecção inicial. A probabilidade de o
indivíduo vir a ser infectado e de que essa infecção
evolua para a doença depende de múltiplas causas. As
condições sócio-econômicas são essenciais para essa
multicausalidade. A evolução depende também do
indivíduo estar sendo infectado pela primeira vez
(primo-infecção) ou reinfectado (reinfecção
exógena). A probabilidade de adoecer numa
primo-infecção depende da virulência do bacilo, da
fonte infectante e das características genéticas dos
indivíduos infectados. Em novo contato, após uma
infecção natural ou induzida pela BCG, a resistência
depende da resposta imunológica.
- Período
de Transmissibilidade: a transmissão é plena quando
o doente estiver eliminando bacilos e não tiver iniciado
o tratamento. Com o esquema terapêutico recomendado, a
transmissão é reduzida, gradativamente, a níveis
insignificantes ao fim de poucos dias ou semanas. As
crianças com tuberculose pulmonar geralmente não são
infectantes.
- Suscetibilidade
e Imunidade: o risco de adoecimento é maior nos
menores de 5 anos, nos adolescentes, adultos jovens e nos
idosos. As reativações de infecções antigas e
latentes explicam grande parte dos casos de doença em
idosos. Entre os infectados, a probabilidade de adoecer
aumenta quando apresentam a infecção pelo vírus da
imunodeficiência humana (HIV) e outras formas de
imunodepressão. Também é maior nas pessoas
desnutridas, com silicose, diabetes e usuários de drogas
endovenosas. A imunidade natural pode ser
explicada por diferenças fisiológicas que existem nas
várias espécies. No entanto, não existem diferenças
fisiológicas que expliquem os diversos graus de
imunidade, aparentemente natural, que são observados em
uma mesma espécie animal. A maior ou menor imunidade
natural parece estar relacionada com a maior ou menor
velocidade com que o hospedeiro é capaz de adquirir
imunidade. Assim, não haveria propriamente uma imunidade
"natural", mas uma imunidade adquirida mais
rápida e eficaz e, portanto, capaz de propiciar o
controle da infecção numa fase precoce. Essa
competência imunológica é controlada geneticamente,
embora os fatores, como a desnutrição, possam
suprimi-la. Na imunidade adquirida para a tuberculose a
resposta imunológica humoral não tem importância. A
imunidade da tuberculose é fundamentalmente mediada pelo
sistema imunológico celular, timo-dependente, através
da interação entre linfócitos T ativados e
macrófagos.
- Distribuição,
Morbidade, Mortalidade e Letalidade: a tuberculose
não apresenta variações cíclicas ou sazonais, de
importância prática. A prevalência observada é maior
em áreas de grande concentração populacional e
precárias condições sócio-econômicas e sanitárias.
A distribuição da doença é mundial, com tendência
decrescente da morbidade e mortalidade nos países
desenvolvidos. Nas áreas com elevada prevalência de
infecção pelo HIV, vem ocorrendo estabilização ou
aumento do número de casos e óbitos por tuberculose.
Estão mais sujeitos à doença indivíduos que convivam
(comunicantes) com doente bacilífero,
determinados grupos com redução da imunidade, como os
silicólicos e pessoas que estejam em uso de
corticosteróides ou infectados pelo HIV. No Brasil, no
ano de 1995, foram notificados 90.978 casos novos
de tuberculose (coeficiente de incidência de 58,6/100
mil hab.), dos quais 45.650 foram formas pulmonares
bacilíferas (coeficiente de incidência de 29,4/100 mil
hab.) e 14.119 extrapulmonares (coeficiente de
incidência de 9,1/100 mil hab.). Dadas as desigualdades
sócio-econômicas existentes, observa-se uma variação
dessa taxa em diferentes regiões. Naquele mesmo ano, a
taxa de incidência por todas as formas variou de 126,8
por 100 mil habitantes (Rio de Janeiro) a 25,1 por 100
mil (Goiás). Antes do advento da moderna quimioterapia,
a mortalidade era o indicador utilizado tanto para
avaliar a tendência da endemia, como para fazer
estimativas de morbidade - a prevalência era o dobro da
incidência, que por sua vez era o dobro da mortalidade.
Na era quimioterápica, essas equivalências romperam-se,
hoje representando a mortalidade muito mais o desempenho
do controle da doença, uma vez que praticamente todos
teriam chance de se curar diante de um diagnóstico
precoce e tratamento corretamente administrado. A
mortalidade específica por meningite tuberculosa nos
primeiros anos de vida, que poderia ser um bom indicador
da extensão da doença bacilífera na população
adulta, perde sua importância nas regiões com elevada
cobertura da vacina BCG. A análise da mortalidade deve
considerar a distribuição geográfica, os grupos
etários e a associação com o HIV.
(Fonte:
Fundação Nacional de Saúde)