GUIA
DE DOENÇAS
MALÁRIA
A malária ou
paludismo, também conhecida como impaludismo, febre palustre,
febre intermitente, ou, em suas formas específicas, febre
terçã benigna, febre terçã maligna e febre quartã, recebe no
Brasil outros nomes populares, como maleita, sezão, tremedeira,
batedeira ou, simplesmente febre. Ela continua sendo uma das mais
importantes doenças parasitárias, se bem que as medidas de
controle e os medicamentos modernos já lhe tenham retirado parte
daquele caráter de flagelo da humanidade, que antes lhe era
atribuída.
- Agente
Etiológico: a malária humana, no Brasil, é causada
por uma das três seguintes espécies de plasmódios:
- Plasmodium
malariae (Laveram, 1881);
- Plasmodium
vivax (Grassi e Feletti, 1890); e
- Plasmodium
falciparum (Welch, 1897).
Em áreas
com elevada transmissão de malária, onde coexistem o
Plasmodium falciparum e o Plasmodium vivax,
freqüentemente é detectada a associação dessas
espécies no exame de amostra de sangue de um paciente;
outro caso que também deve ser considerado como
infecção mista é aquele identificado através da "Lâmina
de Verificação de Cura" - LVC - após o
tratamento radical da espécie diagnosticada
inicialmente, outra espécie é revelada, sem que o
paciente tenha contraído nova infecção.
- Reservatório:
o homem é o único reservatório importante da
malária humana, embora os macacos das espécies
superiores possam albergar o P. malariae. Na Amazônia,
pesquisadores comprovaram a presença de P. brasilianum e
P. simium, morfologicamente semelhantes aos P. malariae e
P. vivax, em macacos de grande e pequeno portes,
respectivamente, mas a transmissão natural ao homem não
tem sido comprovada.
- Vetores: todos
os transmissores de malária dos mamíferos são insetos
da ordem dos dípteros, da família Culicidae e do
gênero Anopheles. Este gênero compreende cerca de 400
espécies, das quais apenas reduzido número tem
importância para a epidemiologia da malária, em cada
região. No Brasil, cinco espécies são consideradas
como vetores principais: Anopheles darlingi, Anopheles
aquasalis, Anopheles albitarsis, Anopheles cruzi e
Anopheles bellator. Os anofelinos são pequenos
dípteros, medindo em geral menos de um centímetro de
comprimento ou de envergadura, corpo delgado e longas
pernas que lhe valeram em algumas regiões o nome de
"pernilongo". No Brasil, são conhecidos
também por "carapanã", "muriçoca",
"sovela", "mosquito-prego" ou,
simplesmente, mosquito. A maioria dos anofelinos tem
hábitos crepusculares ou noturnos. Durante o dia,
dirigem-se para lugares onde ficam ao abrigo da luz
excessiva, do vento e dos inimigos naturais. Aí
encontram também maior grau de umidade durante as horas
quentes do dia. Nos abrigos situados próximo aos
criadouros, o número de machos e o de fêmeas costuma
ser mais ou menos o mesmo. Em geral, tais ambientes são
constituídos por arbustos e lugares de vegetação
densa, oco ou árvores, espaços sob raízes e troncos
caídos, em grutas ou buracos de animais, etc. Ao
crepúsculo, movidas pela necessidade de uma refeição
sangüínea, as fêmeas saem em busca de suas fontes
alimentares: animais ou homens. As espécies que procuram
principal ou unicamente o sangue de animais (mamíferos,
aves, etc) são qualificadas pela maioria dos
especialistas como "zoófilas", enquanto as que
picam freqüente ou preferencialmente o homem são ditas
"antropófilas". Certo grau de antropofilia é
condição fundamental para que uma espécie de anofelino
seja boa vetora de malária humana. Anofelinos que
costumam penetrar nas habitações humanas participam
mais ativamente da transmissão da malária do que as
espécies que permanecem de preferência no exterior.
Este traço do comportamento, qualificado como
domesticidade ou endofilia da espécie, é tomado em
consideração nos inquéritos epidemiológicos. Ele
fornece um dos parâmetros para medir a eficiência dessa
espécie, como vetora da doença, e ajuda a planejar a
luta anti-anofélica pela aplicação de inseticidas no
interior das casas. A característica oposta à endofilia
denomina-se exofilia. Em certas regiões, a malária é
transmitida por vetores no extra-domicílio, fato esse
que requer outra orientação no planejamento do
controle. Há mosquitos que penetram nas casas durante o
crepúsculo vespertino e só se retiram ao amanhecer.
Depois de picar, as fêmeas procuram repousar no interior
das casas, nas partes baixas das paredes, atrás dos
móveis, quadros, roupas penduradas ou outros
esconderijos. A duração do contato dos insetos com a
superfície interna das habitações tem grande
importância para o efeito dos inseticidas de insetos de
ação residual aí aplicados. As espécies ou variedades
que têm por hábito abandonar as casas logo depois de se
alimentarem, ou que ficam muito pouco tempo, subtraem-se
mais facilmente à intoxicação pelos inseticidas,
principalmente quando esses exercem alguma ação
excito-repelente sobre os mosquitos. O principal vetor da
malária no Brasil é o An. (N) darlingi. Antes da
campanha de erradicação da malária só estavam livres
de sua presença dois estados nordestinos (Rio Grande do
Norte e Paraíba) e dois sulinos (Santa Catarina e Rio
Grande do Sul). Cria-se em grandes coleções de água,
como represas, lagos, lagoas, remansos de rios.
Encontra-se em águas profundas, límpidas, pobres de
matéria orgânica. Na época das chuvas, forma novos
criadouros nos alagadiços, escavações e depressões de
terreno. Nos poços "ilhas flutuantes", ao
longo dos grandes rios, contribui para o transporte e
dispersão do An. darlingi. Além de sua domesticidade
(endofilia), é notavelmente antropófilo, picando homens
de preferência a outros animais. Em muitos lugares, pica
freqüentemente fora das casas, condicionando uma
transmissão extra-domiciliar da malária. Essa espécie
é muito suscetível à infecção pelos plasmódios,
tendo sido observadas, em condições naturais, taxas de
parasitismo superiores a 20% no estômago (índice
oocístico) e superiores a 5% nas glândulas salivares
(índice esporosóitico).
- Modo de
Transmissão: a doença se transmite por uma fêmea
anofelina infectante. A maioria das espécies se alimenta
ao anoitecer ou nas primeiras horas da noite. Algumas
espécies de Anopheles ingerem sangue humano que contém
plasmódios em sua forma de gametócitos. Nas espécies
suscetíveis à infecção, gametócitos macho e fêmea
se unem para formar o oocineto que apresenta uma série
de transformações no seu interior, no prazo de 8 a 35
dias, segundo a espécie do parasito e a temperatura a
que está exposto o vetor, para formar os esporozoítos.
Esses se concentram nas glândulas salivares e são
injetados no organismo humano cada vez que o inseto se
alimenta de sangue. A malária pode transmitir-se por
injeção e transfusão de sangue de pessoas infectadas
ou por seringas hipodérmicas contaminadas, como as que
usam os toxicômanos. Pode haver transmissão congênita
em casos excepcionais.
- Período
de Incubação: a média é de 12 dias para o P.
falciparum,14 dias para o P. vivax e 30 dias para o P.
malariae. Com algumas cepas de P. vivax, em zonas
temperadas ou subtropicais, pode haver um período de
incubação prolongado, de 8 a 10 meses. Nos casos em que
a causa de infecção é uma transfusão de sangue, o
período de incubação geralmente é breve, mas varia de
acordo com o número de parasitos contidos no sangue.
- Período
de Transmissibilidade: o homem infecta o mosquito
enquanto circulem no sangue gametócitos infectantes, em
número suficiente para que o mosquito, ao sugá-lo,
possa ingerir gametócitos de ambos os sexos. Em casos
sem tratamento ou insuficientemente tratados, pode ser
fonte de infecção para o mosquito durante mais de 3
anos, na malária quartã; de um a 3 anos na malária por
vivax; e, geralmente, não mais de um ano, em malária
por falciparum. O mosquito permanece infectante durante
toda a sua vida. A transmissão por transfusão
sangüínea pode ocorrer enquanto permanecer no sangue
circulante formas assexuadas. O sangue armazenado pode
continuar infectante durante 16 dias.
- Suscetibilidade
e Resistência: de um modo geral, todas as pessoas
são suscetíveis à infecção. Os adultos de uma
coletividade altamente endêmica, onde a exposição aos
anofelinos infectantes continua por muitos anos,
desenvolvem tolerância ou resistência a infecção.
- Distribuição:
no Brasil, a distribuição geográfica é extensa. A
área endêmica original, delimitada nos anos 50 através
de estudos entomológicos e detecção de casos, abrangia
6,9 milhões de Km2. Ao final de 1997, cerca
de 61 milhões de habitantes viviam nessa imensa área,
dos quais 19 milhões na Amazônia Legal e 41 milhões
nas demais regiões. Entretanto, a população mais
exposta ao risco de contrair malária era bem menor: 6
milhões na Amazônia Legal e menos de 1 milhão no
restante do país, esses últimos vivendo em áreas
residuais de transmissão ("baixo risco") ou em
torno de focos novos resultantes da introdução de casos
importados. Dos 405.051 portadores de plasmódios
diagnosticados através de exames parasitológicos, em
1997, 403.108 foram registrados na Amazônia Legal, ou
seja 99,5% daquele total. Considere-se que a maioria dos
pacientes que compõe os 0,5% restantes adoeceu na
Amazônia, mas a identificação foi feita nas demais
regiões (casos importados). Na Amazônia, em 1997, a
malária apresenta maior concentração de casos no
Pará, Rondônia e Amazonas - cerca de 76,3% dos
registros. No Pará, os municípios mais comprometidos
estão em garimpos (vale do Rio Tapajós/Jamanxym, Xingu
e Araguaia/Tocantins) e nas áreas de influência das
rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém). Em
Rondônia, as maiores incidências estão em Jamari,
Campo Novo, Rio Crespo, Buritis, Alto Paraíso e Costa
Marques, onde se registraram altas densidades de
Anopheles darlingi. No Amazonas, os municípios que
apresentaram maior registro de casos foram Manaus, Apuí,
Tefé, Humaitá e Eirunepé em conseqüência dos fluxos
populacionais procedentes de zonas rurais e da fixação
dessas populações em áreas urbanas periféricas onde
existem vetores. Com menor intensidade a transmissão
ocorreu em áreas dispersas do Estado como Apuí e
Huamitá (no Madeira), Lábrea e Canutama (no Purus); e
Alvarães e Tefé (no Solimões). Outras regiões menos
extensas integram as áreas de elevada transmissão,
classificadas como de "alto risco", tais como:
parte oeste de Roraima (garimpos, área Yanomami); Vale
do Rio Acre (Plácido de Castro e Senador Guiomard) e
trechos da bacia do Juruá (Cruzeiro do Sul e Tarauacá);
vale do Rio Jari e área de influência da Rodovia
Perimetral Norte, no Amapá. No Maranhão e no Tocantins,
a transmissão é menos intensa, mas destacam-se
Imperatriz, Açailândia, Pindaré, Santa Luzia e Zé
Doca, no primeiro, e Xambioá, Araguatins e Ilha do
Bananal, no segundo. Em síntese, a vigilância
epidemiológica deve estar atenta para os pacientes
febris procedentes das áreas relacionadas acima, que
abrangem 1,8 milhões de Km2 e onde vivem 6
milhões de habitantes, com alto risco de adoecer por
malária.
(Fonte:
Fundação Nacional de Saúde)