GUIA
DE DOENÇAS
LEPTOSPIROSE
Aspectos
Epidemiológicos :
A leptospirose é
uma doença infecciosa aguda, de caráter sistêmico, que acomete
o homem e os animais, causada por microorganismos pertencentes ao
gênero Leptospira. A distribuição geográfica da leptospirose
é cosmopolita, no entanto a sua ocorrência é favorecida pelas
condições ambientais vigentes nas regiões de clima tropical e
subtropical, onde a elevada temperatura e os períodos do ano com
altos índices pluviométricos favorecem o aparecimento de surtos
epidêmicos de caráter sazonal. É uma zoonose de alta
importância devido aos prejuízos que acarreta, não só em
nível de saúde pública, face à alta incidência de casos
humanos, como também econômicos, em virtude do alto custo
hospitalar dos pacientes, da perda de dias de trabalho e das
alterações na esfera reprodutiva dos animais infectados.
- Agente
Etiológico: o gênero Leptospira é um
dos componentes da família dos Espiroquetídeos,
onde estão reunidos os microrganismos com morfologia
filamentosa, espiralados, visualizados apenas pela
microscopia de campo escuro e de contraste de fase,
com afinidade tintorial pelos corantes argênticos.
Nesse gênero aceita-se atualmente a existência de
duas espécies: L.interrogans e L.biflexa, as quais
reúnem, respectivamente, as estirpes patogênicas e
aquelas saprófitas de vida livre, encontradas
usualmente em água doce de superfície.A
diferenciação em espécie apoia-se nas
características de crescimento em meios de cultivo
enriquecidos; no entanto, do ponto de vista
taxonômico, as características antigênicas
decorrentes de antígenos de parede, com natureza
lipoproteica, possibilitam as diferenciações
sorológicas que superam a cifra de 200 exemplares
para a espécies L. interrogans, as quais com base em
relações antigênicas são reagrupadas em
sorogrupos.
Dentre
os fatores ligados ao agente etiológico que favorecem a
persistência dos focos de leptospirose, especial destaque
deve ser dado ao elevado grau de variação antigênica;
relativo grau de sobrevivência em nível ambiental em
ausência de parasitismo (registros experimentais referem
até 180 dias desde que haja alto nível de umidade,
proteção contra os raios solares e valores de pH neutro ou
levemente alcalino); ampla variedade de vertebrados
suscetíveis, os quais podem hospedar o microorganismo.
- Reservatório
e Fonte de Infecção: os roedores desempenham o
papel de principais reservatórios da doença, pois
albergam a leptospira nos rins, eliminando as vivas no
meio ambiente e, contaminando água, solo e alimentos.
Dentre os roedores domésticos (Rattus norvegicus, Rattus
rattus e Mus musculus), grande importância deve se
dispensar ao R. norvegicus, portador clássico da L.
icterohaemorraghiae, a mais patogênica ao homem.
- Modo de
Transmissão: a infecção humana pela leptospira
resulta da exposição direta ou indireta à urina de
animais infectados. Em áreas urbanas, o contato com
águas e lama contaminados demonstram a importância do
elo hídrico na transmissão da doença ao homem, pois a
leptospira dela depende para sobreviver e alcançar o
hospedeiro. Há outras modalidades menos importantes de
transmissão como a manipulação de tecidos animais e a
ingestão de água e alimentos contaminados. A
transmissão de pessoa a pessoa é muito rara e de pouca
importância prática. A penetração do microorganismo
se dá pela pele lesada ou mucosas da boca, narinas e
olhos, podendo ocorrer através da pele íntegra, quando
imersa em água por longo tempo.
- Período
de Incubação: varia de um a vinte dias, sendo em
média de sete a quatorze dias.
- Período
de Transmissibilidade: a infecção inter-humana é
rara, sem importância prática.
- Suscetibilidade
e Imunidade: a suscetibilidade no homem é geral,
porém ocorre com maior freqüência em indivíduos do
sexo masculino na faixa etária de 20 a 35 anos, não
devido a uma preferência do agente a estes indivíduos,
mas por estarem mais expostos a situações de risco. A
imunidade adquirida é sorotipo específica, podendo
incidir mais de uma vez no mesmo indivíduo, porém, por
sorovares diferentes. Tradicionalmente, algumas
profissões são consideradas de alto risco, como
trabalhadores em esgotos, algumas lavouras e pecuária,
magarefes, garis e outras. No Brasil, há nítida
predominância de risco em pessoas que habitam ou
trabalham em locais com más condições de saneamento e
expostos a urina de animais, sobretudo a de ratos, que se
instalam e proliferam, contaminando, assim, água, solo e
alimentos.
- Distribuição,
Morbidade, Mortalidade e Letalidade: a leptospirose
é uma doença de caráter sazonal, intimamente
relacionada aos períodos chuvosos, quando há elevação
dos índices pluviométricos e um conseqüente aumento na
incidência de casos da doença. É uma doença
endêmica, sendo comum o surgimento de casos isolados ou
de pequenos grupos de casos, tornando-se epidêmica sob
determinadas condições, tais como umidade e
temperaturas elevadas e alta infestação de roedores
contaminados. A doença ocorre tanto em nível rural
quanto urbano. Na segunda, adquire um caráter mais
severo, devido à grande aglomeração urbana de baixa
renda morando à beira de córregos, em locais
desprovidos de saneamento básico, em condições
inadequadas de higiene e habitação, coabitando com
roedores, que aí encontram água, abrigo e alimento
necessários à sua proliferação. A presença de água,
lixo e roedores contaminados predispõe à ocorrência de
casos humanos de leptospirose. No Brasil, durante o
período de 1985 a 1997, foram notificados 35.403 casos
da doença, variando desde 1.594 casos anuais (mínimo)
em 1987, a 5.576 em 1997 (máximo). Nesse mesmo período,
houve 3.821 óbitos, variando desde 215 em 1993 (mínimo)
a 404 óbitos em 1988 (máximo). A letalidade da doença
nesse período variou de 6,5% em 1996, a 20,7% em 1987,
numa média de 12,5%, dependendo entre outros fatores, do
sorovar infectante, da gravidade, da forma clínica, da
precocidade do diagnóstico, do tratamento e da faixa
etária do paciente.
(Fonte:
Fundação Nacional de Saúde)