GUIA DE DOENÇAS
FEBRE TIFÓIDE
Aspectos Epidemiológicos :
A febre tifóide é uma doença bacteriana aguda, de distribuição mundial, associada a baixos níveis sócio-econômicos, relacionando-se, principalmente, com precárias condições de saneamento, higiene pessoal e ambiental. Foi praticamente eliminada em países onde estes problemas foram superados, mas persiste no Brasil de forma endêmica, com superposição de epidemias, especialmente no Norte e Nordeste, refletindo as condições de vida dessas regiões.
Agente Etiológico: uma bactéria gram-negativa: Salmonella typhi, da família Enterobacteriaceae. · Reservatório: o homem (doente ou portador). Modo de Transmissão: A transmissão se dá principalmente de forma indireta através de água e alimentos, em especial o leite e derivados, contaminados com fezes ou urina de paciente ou portador. A contaminação de alimentos verifica-se geralmente por manipulação de alimentos feita por portadores ou oligossintomáticos, sendo por isso a febre tifóide conhecida como a doença das mãos sujas.Raramente as moscas participam da transmissão. O congelamento não destrói a bactéria, sendo que sorvetes, por exemplo, podem ser veículos de transmissão. Todavia, só uma grande concentração de bactérias é que determinará a possibilidade de infecção. Por isso não se costuma verificar surtos de febre tifóide após enchentes, quando provavelmente há maior diluição de bactérias no meio hídrico, com menor possibilidade de ingestão de salmonelas em número suficiente para causar a doença.
A carga bacteriana infectante, experimentalmente estimada, é 106 a 109 bactérias ingeridas. Infecções subclínicas podem ocorrer com a ingestão de um número bem menor de bactérias. Tempo de Sobrevida do Agente nos Diferentes Meios, Particularmente nos Alimentos: Água: varia, consideravelmente, com a temperatura (temperaturas mais baixas levam a uma maior sobrevida), com a quantidade de oxigênio disponível (as salmonelas sobrevivem melhor em meio rico em oxigênio), e com o material orgânico disponível (águas poluídas, mas não tanto a ponto de consumir todo oxigênio, são melhores para a sobrevida do agente). Em condições ótimas, a sobrevida nunca ultrapassa de 3 a 4 semanas.
Esgoto: em condições experimentais, quase 40 dias. Água do Mar: não é um bom meio. Para haver o encontro de salmonela na água do mar é necessário uma altíssima contaminação. Ostras, Mariscos e Outros Moluscos: sobrevida demonstrada de até 4 semanas. Leite, Creme e Outros Laticínios: constituem um excelente meio, chegando a perdurar até por 2 meses na manteiga, por exemplo. Carnes e Enlatados: são raros os casos adquiridos através destes alimentos, provavelmente porque o processo de preparo dos mesmos é suficiente para eliminar a salmonela. Mas, uma vez preparada a carne ou aberta a lata, a sobrevida do agente é maior do que a vida útil destes alimentos. Obs.: ostras e outros moluscos, assim como leite e derivados, são os principais alimentos responsáveis pela transmissão da febre tifóide. Praticamente todos os alimentos, quando manipulados por portadores, podem veicular a Salmonella typhi inclusive havendo registro de transmissão por suco de laranja. · Período de Incubação: depende da dose infectante. É comumente de 1 a 3 semanas (2 semanas em média).
Período de Transmissibilidade: a transmissibilidade se mantém enquanto existirem bacilos sendo eliminados nas fezes ou urina, o que ocorre geralmente, desde a primeira semana da doença até o fim da convalescença. A transmissão após essa fase dá-se por períodos variáveis, dependendo de cada situação. Sabe-se que cerca de 10% dos pacientes continuam eliminando bacilos durante até 3 meses após o início da doença. A existência de portadores é de extrema importância na epidemiologia da doença: 2 a 5% dos pacientes após a cura se transformam em portadores (geralmente mulheres adultas). Tanto em doentes quanto em portadores, a eliminação da Salmonella typhi costuma ser intermitente.
Portadores: indivíduos que, após enfermidade clínica ou sub-clínica, continuam eliminando bacilos por vários meses. São de particular importância para a vigilância epidemiológica porque mantêm a endemia e dão origem a surtos epidêmicos. 1. Suscetibilidade e Imunidade: a suscetibilidade é geral, e é maior nos indivíduos com acloridria gástrica. A imunidade adquirida após a infecção ou vacinação não é definitiva. · Distribuição, Morbidade, Mortalidade e Letalidade: a doença não apresenta alterações cíclicas ou de sazonalidade que tenham importância prática. Não existe uma distribuição geográfica especial. A ocorrência da doença está diretamente relacionada às condições de saneamento básico existentes e aos hábitos individuais. Estão mais sujeitas à infecção as pessoas que habitam ou trabalham em ambientes com precárias condições de saneamento. A doença acomete com maior freqüência a faixa etária entre 15 e 45 anos de idade em áreas endêmicas. A taxa de ataque diminui com a idade. Observando-se o comportamento da febre tifóide no Brasil nas últimas décadas, constata-se uma tendência de declínio nos coeficientes de incidência, mortalidade e letalidade. Estes indicadores apresentam importantes variações quando analisados por regiões e unidades da federação. As regiões Norte e Nordeste registram sempre números mais elevados devido à precariedade de suas condições sanitárias, onde menos de 50% de sua população dispõe de algum tipo de abastecimento de água. Por outro lado o Nordeste, em 1988, apresentou o menor coeficiente de letalidade (1,4%), em relação às demais regiões (Norte 52%, Sudeste 5,2%, Sul 2,5%, Centro Oeste 8,3%), reflexo de um importante sub-registro de óbitos. Chamamos a atenção para que os dados de morbi-mortalidade da febre tifóide sejam vistos com cautela quanto à sua representatividade e fidedignidade devido às seguintes razões: · 20% do total dos óbitos no Brasil têm causa básica ignorada; · dificuldades quanto ao diagnóstico laboratorial necessário para a identificação do agente etiológico; e · precariedades do sistema de informação - comparando os dados de febre tifóide de fontes distintas, observa-se disparidade entre as mesmas.
(Fonte: Fundação Nacional de Saúde)
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