GUIA DE DOENÇAS
DOENÇA DE CHAGAS
Aspectos Epidemiológicos:
A Doença de Chagas era, primitivamente, uma enzootia que afetava exclusivamente animais silvestres, transmitida por triatomíneos também silvestres. O homem, ao invadir estes ecótopos naturais, possibilitou que os triatomíneos se instalassem em seus domicílios, transformando a tripanosossomíase americana em uma antropozoonose. É uma parasitose exclusiva do continente americano. No Brasil, o risco da transmissão correspondia a 36% do território do país, atingindo mais de 2.450 municípios, que se estendiam do Maranhão ao Rio Grande do Sul, incluindo grande parte das regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. O inquérito sorológico nacional, realizado no final da década de 70, estimou a existência de 5 milhões de brasileiros infectados pelo Trypanosoma cruzi. Grande parte dessas infecções se deram na área rural, em virtude do contato dos indivíduos com fezes de triatomíneos domiciliados. Até recentemente, esta era a principal forma de transmissão da infecção.As medidas de controle adotadas, centradas no combate dos vetores domiciliados com inseticidas, proporcionou a virtual eliminação da principal espécie vetora no país, o Triatoma infestans, em parte desta área modificando consideravelmente a epidemiologia da doença, no que diz respeito à sua incidência e formas de transmissão. Casos autóctones, que até recentemente vinham sendo detectados de maneira isolada na Amazônia, vêm aumentando gradativamente nos últimos anos, ao mesmo tempo que espécies de triatomíneos silvestres aproximam-se perigosamente do domicílio humano, o que significa que a endemia pode se expandir geograficamente.
Agente Etiológico: é o Trypanosoma cruzi, protozoário flagelado da ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae, caracterizado pela presença de um flagelo e uma única mitocôndria. No sangue dos vertebrados, o Trypanosoma cruzi se apresenta sob a forma de trypomastigota e, nos tecidos, como amastigotas. Nos invertebrados (insetos vetores), ocorre um ciclo com a transformação dos tripomastigotas sangüíneos em epimastigotas que depois se diferenciam em trypomastigotas metacíclicos, que são as formas infectantes acumuladas nas fezes do inseto. · Reservatórios Além do homem, mamíferos domésticos e silvestres têm sido naturalmente encontrados infectados pelo Trypanosoma cruzi, tais como: gato, cão, porco doméstico, rato de esgoto, rato doméstico, macaco de cheiro, sagüi, tatu, gambá, cuíca, morcego, dentre outros. Os mais importantes epidemiologicamente são aqueles que coabitam ou estão muito próximos do homem como o cão, o rato, o gambá, o tatu, e até mesmo o porco doméstico, encontrado associado com espécies silvestres na Amazônia. As aves e animais de "sangue frio" (lagartos, sapos, outros) são refratários à infecção.
Modo de Transmissão: a transmissão natural ou primária da Doença de Chagas é a vetorial, que se dá através das fezes dos triatomíneos, também conhecidos como "barbeiros" ou chupões". Esses, ao picar os vertebrados, em geral defecam após o repasto eliminando formas infectantes de trypomastigotas metacíclicos presentes em suas fezes e que penetram pelo orifício da picada ou por solução de continuidade deixada pelo ato de coçar. Com a diminuição da densidade triatomínica domiciliar ou mesmo com a eliminação daquela espécie estritamente domiciliar (Triatoma infestans), reduziu-se significativamente a transmissão vetorial que, na década de 70, se estimava ser responsável por 80% das infecções humanas. A transmissão transfusional ganhou grande importância epidemiológica nas duas últimas décadas em função da migração de indivíduos infectados para os centros urbanos e da ineficiência no controle das transfusões nos bancos de sangue. A transmissão congênita ocorre, mas muitos dos conceptos têm morte prematura, não se sabendo com precisão qual a influência dessa forma de transmissão na manutenção da endemia. Existe ainda a transmissão acidental em laboratório e a transmissão pelo leite materno, ambas de pouca significância epidemiológica. Sugere-se a hipótese de transmissão por via oral em alguns surtos episódicos.
Período de Incubação
Quando existe sintomatologia na fase aguda, esta costuma aparecer 5 a 14 dias após a picada do inseto vetor. Quando adquirida por transfusão de sangue, o período de incubação varia de 30 a 40 dias. As formas crônicas da doença se manifestam mais de 10 anos após a infecção inicial.
Período de Transmissibilidade: a infecção só passa de pessoa a pessoa através do sangue, ou de modo congênito através da placenta. A maioria dos portadores da infecção chagásica tem o parasito no sangue circulante ou nos tecidos durante toda a vida, sendo que a parasitemia é maior durante a fase aguda da doença. Isto significa que os indivíduos infectados potencialmente são transmissores da doença, caso doem sangue ou órgãos, em qualquer época de suas vidas.
Susceptibilidade e Imunidade: todos os indivíduos são suscetíveis à infecção. A imunidade humoral é demonstrada pela detecção de anticorpos circulantes nas fases aguda e crônica da infecção. A imunidade celular tem sido imputada como importante no desencadeamento das lesões teciduais das formas crônicas da doença, por se tratar de fenômenos desencadeados por auto-imunidade.
Distribuição, Morbidade, Mortalidade e Letalidade: é uma doença endêmica que não apresenta variações cíclicas ou sazonais de importância epidemiológica. Antes de se iniciar o programa de controle da doença, a maioria dos casos ocorriam na área rural, nos domicílios infestados por triatomíneos. Com a migração, estima-se que, hoje, muitos dos infectados residem em área urbana. A maioria dos indivíduos infectados são oriundos da área rural, pertencem aos extratos sociais menos favorecidos e foram contaminados no interior de habitações infestadas pelos insetos vetores. Na década de 70 estimou-se que o número de casos novos, a cada ano, era em torno de 100.000 e a prevalência de 4,2%, sendo as mais altas as dos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Sergipe e Bahia. O coeficiente de mortalidade foi, em 1980, de 5,2/100.000 habitantes e, em 1990, 4,1/100.000 habitantes, o que correspondia a uma média de 6.000 óbitos por esta causa, a cada ano. Por ser uma doença crônica, cuja sintomatologia só se manifesta décadas depois da infecção inicial, não se dispõe de dados sobre a letalidade. · Insetos Vetores: das 118 espécies conhecidas, 42 foram identificadas até agora no país, das quais 30 já capturadas no ambiente domiciliar. Dessas, cinco têm especial importância na transmissão da doença ao homem. Por ordem de importância: Triatoma brasiliensis, Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, Triatoma pseudomaculata e Triatoma sordida. Outros, como Triatoma rubrovaria, no Rio Grande do Sul, e Rhodinus neglectus, em Goiás, com a eliminação do Triatoma infestans, vêm colonizando a habitação e tendem a assumir também algum papel na transmissão domiciliar da Doença de Chagas. Outras espécies, por razões diversas, devem ser consideradas. Entre essas, deve-se fazer referência ao Triatoma vitticeps, pelas altas taxas de infecção natural (Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais); Rhodinus nasatus, pela freqüência com que é capturado, em áreas localizadas (CE e RN); e Rhodinus prolixus, pelo fato de ser a principal espécie em alguns países (Colômbia, Venezuela) e por ter sido identificado em focos naturais (macaubeiras), no estado do Tocantins. Na Amazônia, as espécies mais importantes são: Rhodinus pictipes, Rhodinus robustus, Panstrongylus geniculatus e Pastrongylus lignarius.
(Fonte: Fundação Nacional de Saúde)
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