UM PROJETO DE NAÇÃO
Patrus Ananias e Frei Betto*
O
Fome Zero é uma política pública que
visa à erradicação da fome e da exclusão
social. É uma política porque expressa a decisão
do governo federal de enquadrar o problema da fome como uma
questão nacional central e não como uma fatalidade
individual. O Estado está alocando recursos humanos
e financeiros em praticamente todas as suas áreas de
atuação com o objetivo de estender os direitos
de cidadania a milhões de brasileiros excluídos.
Trata-se,
portanto, de uma política pública porque, além
do Estado, envolve toda a sociedade. Em geral, os governantes
preferem a sociedade imobilizada. O governo Lula, ao contrário,
criou um gabinete de mobilização social do Fome
Zero, que, ao lado do Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome, cuida da parceria com a sociedade
civil organizada. Assim, empresas, denominações
religiosas, ONGs, sindicatos e escolas têm se inserido
no mutirão de combate à fome. A Mobilização
Social criou uma rede de mais de 600 educadores populares
- o Talher - que, em todos os estados do Brasil, cuida da
educação cidadã dos agentes e dos beneficiários
do Fome Zero, promovendo capacitação, direitos
humanos e civis, fortalecimento dos movimentos sociais, acompanhamento
de políticas públicas e implementação
dos programas. O ministério articula parcerias para
a viabilização de projetos, como a implantação
de restaurantes populares nas grandes cidades e a construção
de 10 mil cisternas em associação com a Federação
Brasileira das Associações de Bancos (Febraban),
entre outras iniciativas.
Quando
o presidente Lula disse que, se ao final de seu mandato cada
brasileiro tivesse acesso a três refeições
diárias, a missão de sua vida estaria cumprida,
ele não fazia uma promessa, mas lançava um desafio
à sociedade e estabelecia a linha mestra de um ousado
PROJETO DE NAÇÃO. É por isto que, desde
seu lançamento, o Fome Zero alojou-se no espaço
comum da mobilização cívica, no qual
a sociedade se articula com o Estado.
As
ações desenvolvidas no âmbito do Fome
Zero não são assistencialistas. O objetivo desta
política pública é a inclusão
social, através da universalização dos
direitos da cidadania, a começar pelos direitos sociais
básicos (acesso a alimentação, saúde,
educação, previdência e proteção
do emprego) visando à redução do déficit
social do nosso país. Às iniciativas imediatas,
conjugam-se ações estruturantes ligadas à
saúde, à educação e à capacitação
profissional, com o objetivo de romper o círculo de
perpetuação da miséria e emancipar social
e economicamente os 11,4 milhões de famílias
em situação de risco.
Assim,
o Fome Zero é o ambiente mobilizador e o eixo condutor
de programas e ações em cinco grandes áreas:
segurança alimentar e nutricional, renda de cidadania,
programas estruturantes, ações emergenciais
e educação cidadã. Tem o mérito
de colocar a fome na pauta política, como foco do projeto
nacional, além de propiciar a melhoria dos indicadores
sociais dos 1.227 municípios em que foi implantado.
No
processo de evolução das políticas sociais,
em outubro de 2003 foi lançado o Bolsa Família,
que unificou os programas de transferência de renda
então existentes — inclusive o cartão-alimentação,
criado no início do ano passado como instrumento de
segurança alimentar e nutricional. O programa ampliou
expressivamente o número de famílias atendidas,
bem como o valor do benefício. Já são
4 milhões de famílias atendidas em aproximadamente
5,5 mil municípios. Em julho, o programa, que faz parte
do Fome Zero, deverá incluir 4,5 milhões de
famílias, priorizando-se sua expansão nas regiões
metropolitanas, onde a situação de risco social
é mais severa.
A
concessão de benefícios às famílias
é acompanhada de condicionalidades, isto é,
exigem, como contrapartida, que os filhos e as pessoas não
alfabetizadas freqüentem a escola e acessem regularmente
os serviços de saúde.
O
programa incentiva ações positivas para o rompimento
do círculo da miséria e para a inclusão
social. Juntas, as ações de segurança
alimentar e nutricional e de renda de cidadania contam com
recursos orçamentários da ordem de R$ 6 bilhões
em 2004. É um investimento social sem precedentes na
História do país e que expressa o objetivo primordial
do governo Lula: promover o desenvolvimento com justiça
social.
*
Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social
e Combate à Fome. Frei Betto é escritor e foi
assessor especial da Presidência da República.